17 de fevereiro de 2018

Bremen: o "meu" mercadinho

Esta é uma imagem muito presente na minha infância aqui em Bremen. Os Heils, outras vezes a minha mãe, traziam-me frequentemente ao mercado, a este ou outros, porque os mercados ao ar livre com hortícolas e frutos e outros produtos caseiros das quintas das redondezas são muito populares por estas paragens. Muitas vezes, por ser tradição e por graça, vestiam-me em trajes típicos (coisas muito desprezadas aqui em Portugal e meramente associadas a ranchos folclóricos. Na Alemanha há um garbo e um orgulho pelo envergar trajes típicos) e vinham comigo ao mercado. Lembro-me de muitas vendedoras também estarem vestidas com trajes típicos que, aqui em Bremen, incluem rendas muito finas e uns toucados também em tecido fino e rendado. Lembro-me de em muitas banquinhas me darem fatias de diversas espécies de Schinken (carnes frias) a provar como se eu fosse gente grande e depois, como se eu também fosse gente grande, os Heils perguntavam-me se eu gostava. Se eu gostasse, que era sempre, pediam umas quantas gramas ou fatias da dita Schinken, que era embrulhada em papel vegetal, e chegávamos a casa e fazíamos sanduíches com cremes de maionese e ervas (imaginam o que é chegar a Portugal e as sandes na escola serem só fiambre ou queijo em paposseco, grande choque cultural, isso e a televisão a preto e branco que só abria às seis da tarde).
Ainda hoje me perco por mercados...

14 de fevereiro de 2018

Dia 11: Bremen, cidade livre

Há um orgulho de peito cheio que se sente em Bremen. Bremen é o livre-arbítrio dos homens, a liberdade como valor supremo e quem lê este blog sabe o que me significa a liberdade e o que tanto tenho lutado por ela. Acho que, agora que penso nisso ao escrever estas linhas, talvez seja a minha costela Bremenense (xii, como se dirá isto em Português?) que me fez aguentar sete anos de tribunais para obter a minha libertação daquele mal-fadado não-casamento.
Passo pelo parlamento de Bremen e fotografo com emoção o que diz de ser a casa dos cidadãos livres da cidade hanseática e livre de Bremen. Isto não é um Reichstag imponente e quase ameaçador, isto é uma assembleia, uma casa, de gente livre que se junta para se auto-governar por si própria. Nunca aqui houve reis, príncipes, bispos-governadores (bem, bispos poderosos até havia mas não podiam exercer poder total sobre a população). Aqui é uma terra de homens-livres e é com orgulho que digo: eu cresci numa terra assim!
Como imaginam, vou fazer muitos posts sobre Bremen. Não me sinto nem mais nem menos portuguesa por também pertencer a Bremen. O coração é grande e o amor maior. É possível o amor a dois países. Nunca me questionem de qual gosto mais e nunca me peçam escolhas. Sou portuguesa na totalidade do amor patriótico mas há uma parte de mim que também ama esta terra livre.
Bem vindos à cidade do meu coração. Espero que gostem da visita!

10 de fevereiro de 2018

Dia 11: Bremen

E cá estão eles, agora à luz do dia: os Músicos de Bremen, o burro, o cão, o gato e o galo. São presença constante e conspícua nesta cidade hanseática, cidade livre, cidade-estado: Bremen. Há três cidades-estado na Alemanha: Berlin, Hamburg e Bremen, orgulhosamente o mais pequeno estado da Alemanha.
Morávamos na rua do eléctrico que passa à frente da câmara num prédio de três andares com um jardim relvado nas traseiras que fazia as minhas delícias. Um dia chutei uma bola encarnada com bolinhas brancas para o quintal dos vizinhos e perdi-a. Uma tragédia na minha vida infante. Habitávamos o rés-do-chão, os donos do prédio residiam no primeiro andar e o filho destes e a nora moravam no segundo. Adoptaram-me e, por isso, os avós de que me lembro primeiro são estes: os Heils. Vestiam-me nos trajes típicos e saíam comigo para todo o lado. Era um prédio familiar e eu a única criança. Os meus pais e os Heils viviam, literalmente, na casa uns dos outros (lá se vai o mito da frieza) e as portas estavam sempre abertas. Basicamente, eu vinha dormir à minha cama na casa dos meus pais e o resto dia estava com o Helmut e a Ingrid (os filhos dos donos) ou com os Heils sénior que tinham uma gaiola com dois periquitos, um dos quais um terrorista que me bicou um dedo e me fez temer periquitos até este dia.
A primeira morte que sofri foi do Heils avô. Lembro-me de a minha mãe receber a notícia e ficar lívida. Transfigurou-se e foi assim que percebi que a morte existe e que não tem regresso. Lembro-me da explicação que me deram para não voltar a ver o Heils (nunca o chamei pelo primeiro nome) e lembro-me de pensar que aquela explicação devia ter algum erro porque eu não conseguia imaginar o que era nunca mais ver alguém.
Não nasci em Bremen mas Bremen é o primeiro sítio de que me lembro. Regressar aqui é regressar a um local passado e só percebe este sentimento quem vive longe do espaço onde cresceu. sinto demasiadas coisas para as conseguir verbalizar todas...

7 de fevereiro de 2018

Dia 10: E assim, adivinham?

É muito apropriado que a cidade da minha infância seja conhecida por uma história de infância. Tanta noite que fui para a cama a ouvir contar a história. Tanta noite...

3 de fevereiro de 2018

Dia 10: Chegar à infância

É noite quando chegamos. Noite de céu setentrional de profundo azul em pleno Verão. Está um fresco frio. Deixamos as malas no hotel e eu estou com pressa, pressa de entrar na cidade com os pés e senti-la com o corpo. Cheira a maresia e ouve-se música na rua, algo tão comum por estas paragens. Cheguei a casa, à casa onde me habita a infância. Quero tanto que o meu marido goste desta cidade. Quero tanto que a ame e que, através dela, mais e melhor saiba de mim.
Há pouca gente na rua e a cidade é nossa. Pego na mão dele e sigo um passo à frente como quem diz "Anda! Segue-me!" Sorrio e sou feliz. Olho para ele a procurar-lhe emoções e as que encontro nos olhos vêm-lhe do coração que sorri por me ver sorrir. Há lá algo melhor na vida?

Sim, eu sei que não disse o nome da cidade... Pode ser que adivinhem... :)

31 de janeiro de 2018

Dia 10: Potsdam

Potsdam... Outro nome evocativo da história alemã, daqueles nomes relacionados com o tal passado que continua pesadamente a ensombrar o presente. Para o comum dos mortais, Potsdam significa a partição da Alemanha pelas potências vitoriosas do fim da II Guerra. É isso, mas é mais.
Há quem pense que Potsdam foi a capital da Prússia mas não, essa importância foi sempre berlinense. No entanto, Potsdam foi a residência da corte prussiana. É capital do estado de Brandenburg e, no seu conjunto monumental, é património mundial da UNESCO. Potsdam, que fica a uns vinte quilómetros de Berlin, é, na minha lusitana interpretação, uma espécie de Sintra. Não se visita num dia e não é conhecida por um sítio em particular. É um todo.
 Um dos palácios mais emblemáticos é o de Sanssouci, a denominação francesa para "sem preocupações". Era o refúgio do Kaiser, longe do palácio do trono e das suas ocupações "profissionais" e era um local segregado por ser o palácio de diversões com reserva de admissão às senhoras (embora houvesse certas "senhoras" admitidas, se é que me entendem).
Potsdam em dia de sol é uma glória, o local perfeito para dizer auf Wiedersehen (literalmente até nos vermos novamente e, na minha modesta opinião, a melhor palavra para "adeus") a Berlin. A viagem continua e, na próxima etapa, vou levar o meu marido ao local mais feliz da minha infância. Estou feliz que nem posso! Auf Wiedersehen aqui no blog!

26 de janeiro de 2018

Dia 10: Berlin-Gedächtniskirche

De todas as fotos que tirei nesta viagem à Gedächtniskirche, outro dos ícones berlinenses, escolho esta porque olho para ela e vejo um passado entalado entre o presente e o futuro e porque as árvores me podem dizer esperança.
Gedächtnis em alemão significa lembrança. Kirche significa igreja. por isso, literalmente, Gedächtniskirche significa "igreja da lembrança". E lembramos o quê? Originalmente, a igreja foi feita nos finais do século XIX para homenagear, para lembrar, o Imperador Guilherme I (Kaiser Wilhelm I). O neto, o Kaiser Guilherme II, quis homenagear o avô que foi o primeiro imperador alemão (nunca nos esqueçamos que a Alemanha não é um país, é uma aglomerado, uma federação de estados, de povos germânicos que habitavam em ducados, principados, reinos e etcs e que, ao cabo de muitas vontades e esforços, uns a contragosto, outros nem tanto, se uniram no que se chama a Alemanha). Guilherme I era rei da Prússia e depois, com a ajuda do chanceler Otto von Bismarck, que os Portugueses conhecem da Conferência de Berlim e do Mapa Cor-de-Rosa, lá conseguiu unificar aquela variedade monumental de estados e ser proclamado Kaiser (que significa nada mais nada menos do que César), ou seja, imperador (as coisas que aprendem aqui no Blonde!).
Só que, actualmente, a Gedächtniskirche serve uma outra lembrança, a da loucura dos homens, a da Guerra. Berlin foi totalmente arrasada e reduzida a escombros nos bombardeamento da II Guerra Mundial. No processo de reconstrução, a Gedächtniskirche foi deixada por reconstruir e é hoje uma lembrança viva da Guerra numa cidade que vive, todos os dias, a realidade paradoxal da lembrança e do tentar esquecer-se. Não é fácil ser-se berlinense.
Levo o meu marido a conhecer este monumento. Demora-se mais do que esperava que se demorasse. Quer ver, viver esta lembrança. Lê cada legenda das fotografias que ilustram a triste história que aqui se conta. Olho para ele na terceira pessoa e imagino, como ando a imaginar por estes dias, o que lhe vai na cabeça sobre este país e as suas gentes...