24 de abril de 2018

Würzburg: Die Residenz

Tenho, desde sempre, a impressão de que todos os países ex-imperiais se caracterizam pela monumentalidade colossal que nos legaram. Noto isso em Espanha e noto-o muito na Alemanha. Não o noto, porém, em Portugal, onde as coisas me parecem possuir uma dimensão mais consonante com a escala humana. Sim, temos Mafra e os Jerónimos mas isso são excepções. Nos ditos países ex-imperiais, tudo aparece elevado ao gigantismo que, tantas vezes, como que desfeia as construções. A imponência ameaçadora. Sente-se o mesmo aqui na Würzburger Residenz, património UNESCO.
Onde a Residenz se humaniza e se desconstrói em coisa bonita é nos jardins. Lindos, sem as pretensões de um Versailles, ainda que tenha sido erigido para competir comparativamente com Versailles e Schönbrunn em Viena. É tempo de flores abertas em cor e, por sorte, não há ninguém a visitar o palácio a estas horas vespertinas. Não é todos os dias que se tem um palácio por nossa conta, sem barulho, sem gente e sem ninguém que nos dê pressa. A indulgência do tempo é das coisas mais aprazivelmente deliciosas.


21 de abril de 2018

Würzburg: Alte Mainbrücke

Vista de longe com os vinhedos em fundo de cenário, a alte Mainbrücke, ou velha ponte sobre o Meno, quase pareceria localizada num algures nortenho de Portugal. Há aqui uma certa familiaridade para o olhar do viajante luso.
É final da tarde e há a sensação de que toda a população da cidade e mais os turistas todos saíram à rua e convergiram para o passadiço da ponte. Confraternizam com as enormes estátuas de santos e imperadores pouco relacionados com a história lusitana e, por isso, iconoclastas da familiaridade que se alojara no olhar, e vão regando conversas e socializações com os vinhos da região. É uma espécie de Bairro Alto versão diurna em cima de uma ponte.
Por entre a multidão, uma ou outra personagem exótica com que escrevo histórias de vida mentais, quem será?, o que o traz aqui, porque se detém? Também me detenho a saborear a tarde e a enchente anónima. As estátuas ciclópicas baixam dos pedestais vestidas com peúgas e outras roupas menores para se tornarem menos demiurgas. A grandiosidade a ser destituída pelo humor. Vale a pena vir aqui.

18 de abril de 2018

Würzburg: Chegar à Estrada Romântica

Chegamos a Würzburg já a tarde vai longa. Reentramos, assim, na Baviera, para mim, todo um mundo diferente dentro da Alemanha e bem diferente do Norte de onde estamos a vir. Nota-se distintamente que a língua mudou e é por estas alturas que sou relembrada que o meu Alemão não é este Alemão. Não me preocupo, já lá vai o tempo em que isso me tolhia e me constrangia.
Würzburg fica no topo norte da Estrada Romântica e é considerada o seu ponto de partida. Aliás, o quilómetro 0 da Estrada Romântica encontra-se no sopé da Marienberg, a colina encimada pelo forte, ex-sede dos bispos de Würzburg, que controla a vista sobre a cidade. Banhada pelo rio Main, ou Meno em Português, Würzburg está rodeada por campos de vinhas. Pelos vistos, há uma passagem nos Alpes, muito mais ao Sul, que deixa passar ventos amenos do Mediterrâneo e, por isso, as vinhas crescem bem aqui.
O rio é navegável e é mais outra das auto-estradas pelas quais a Alemanha é tão conhecida. Aproveitamos a tarde para passear ao longo das margens do rio sereno e darmo-nos conta de que vamos, efectivamente, dar início ao nosso périplo pela Estrada Romântica que nos levará até bem ao fim e aos castelos impressionantes dos contos de fadas...

14 de abril de 2018

Os vinhedos do Mosel

Depois de Colónia, partimos em direcção ao Sul e à Estrada Romântica, uma intenção que trago bem determinada. O sol a brilhar e a paisagem agrícola fazem lembrar Portugal. Atravessamos a região do rio Mosel, ou Mosela em português, conhecida pela sua produção vinícola que data do período da ocupação romana. É um rio plácido, ainda usado como via de transporte de mercadorias. Embarcações de fundo chato navegam no seu caudal sereno e é fácil imaginar como seria no passado ânforas cheias do néctar precioso chegarem aos mercados de Koblenz e daí para Roma.
O Mosel é um afluente do Reno. Atravessa a Bélgica e o Luxemburgo mas é o seu percurso alemão que é mais (re)conhecido pela sua paisagem icónica de vinhas em socalco e castelos empoleirados no topo de colinas e promontórios. De facto, uma paisagem idílica e algo meridional.

11 de abril de 2018

Comer e beber à beira Reno

À beira do Reno, essa via rápida da Europa, e à sombra da catedral existem excelentes oportunidades para uma paragem para desfrutar o cenário e as maravilhas de Colónia. Quero surpreender o meu marido, mergulhado-o, metaforicamente, no complexo mundo das cervejas alemãs. Colónia é um óptimo local para esse rito de passagem já que Colónia é famosa pela sua Kölsch, a cerveja típica cá do sítio e, para mim, "a" cerveja (ou seja, mais outra das originalidades de Colónia). Entro numa Bierhaus com esplanada virada para o rio, uma das muitas, e pergunto se tem Kölsh.
- Mas há outra? - pergunta a rir o empregado. - Claro que há! É só o que há! - exclama como se o mundo multiplural da cerveja se resumisse a esta. O meu marido nota o humor e olha para mim como quem pensa que, afinal, estes tipos germânicos até têm esse sentido fino que os estereótipos lhes retiram. Sentamo-nos e eu peço uma Halver Hahn para cada um de nós. É a sanduíche típica de Colónia. Enquanto aguardamos, leio, ou tento, os dizeres da "Constituição de Colónia", as Kölsche Grundgesetze. Maravilho-me em continuidade com a riqueza linguística deste país. Uma vez li um artigo no The Guardian a confirmar o que nós sabemos e que a maioria dos estrangeiros ignora: na Alemanha a língua menos falada é o Alemão. Rio mentalmente nessa lembrança. Aliás, o adjectivo para denominar "de Colónia" em Alemão é "Kölnisch" mas na língua falada em Colónia é "Kölsch", tal como a cerveja. Faço a tentativa de ler, mas sucumbo à ignorância.
Chega a cerveja e eu anseio o veredicto do meu marido. "Deliciosa!" Suspiro de alívio e contentamento. Sim, é. Genuinamente, é. Passará o resto da viagem em busca de Kölsch mesmo que eu lhe repita à exaustão que Kölsch é Kölsch por ser de Colónia e só de Colónia. Provará mais cervejas típicas mas nenhuma lhe vai causar e delícia desta. Entretidos nesta apreciação chegam as sanduíches.
- E como é suposto eu comer isto? - pergunta o meu marido ante a visão de uma sanduíche desmontada.
- Fácil. só tens de a compor com os seus elementos - digo eu, para quem a tarefa não poderia ser mais evidente. Ali está um pãozinho, um frasco de mostarda, um pacotinho de manteiga (não há sandes sem manteiga, ok?), uma fatia de queijo edam que dá para um regimento, um pouco de salada e uma porção generosa de rodelas de cebola. Mãos à obra. Ora, o Reno à frente, a Catedral atrás, uma bela Kölsch (até foi mais do que uma...), uma Halver Hahn, uma esplanada sob os pingos da chuva, o meu marido a ser iniciado nestas coisas de Colónia e estou no paraíso. Aproveito cada longo segundo para fazer render o tempo.
 

7 de abril de 2018

"A" Água de Colónia

Colónia é a pátria de muitas originalidades: "a" catedral, "a" água-de-colónia. Sim, por alguma razão chamamos "de colónia" à água perfumada. É de Colónia porque é e porque vem de Colónia. Tudo o resto são derivados.
A água-de-colónia original tem um nome numérico, 4711. Esta é a original, a verdadeira, a que a Mãe usava, a que me perfumou a infância. Tem um cheiro fresco a limão, um cheiro simples e esse aroma, ligeiramente adstringente, é suficiente para me acordar memórias e evocações. Se um perfume falasse, o que este não diria?
Então e porque é que se chama 4711? Ocorre que, quando Colónia foi, tal como Portugal, invadida pelos exércitos napoleónicos, a loja onde se produzia a água perfumada ficou com o número que lhe deram as forças ocupantes ao reformularem a numeração das ruas. 4711 foi o número que calhou em sortes àquela porta e assim o nome ficou. Pelos vistos, os franceses acharam mais linear numerar todas as casas de 1 até ao que fosse ao invés de darem números por rua.
Vir aqui e não levar um frasquinho da água-de-colónia genuína é um quase-crime. Por mim, levo um abastecimento para mim e para oferecer a familiares e amigos. Noto que, no entrementes desde a minha última vinda aqui, a 4711 criou novas linhas perfumantes e, pasme-se a coincidência, uma delas chama-se mesmo... Portugal. 

4 de abril de 2018

Colónia: "A" Catedral

Em Colónia, a grande atracção é a catedral, "a" catedral. Vê-se muito ao longe e muito antes de se chegar à cidade. Vista à distância dos quilómetros parece uma montanha que se eleva na paisagem. Mastodôndica. Colossal. Titânica. Todos os adjectivos da grandeza desmedida se lhe aplicam. Não creio, porém, que se lhe devam os adjectivos da grandiosidade. Do meu ponto de vista, penso que a catedral de Colónia convoque no observador os opostos do amor e do detestar e, em qualquer dos casos, do pasmo. Trago o meu marido e venho a tentar adivinhar em qual dos pólos ele vai cair. Depois da beleza sublime de Bremen, que ele traz bem fresca na memória recente, receio que "a" catedral o vá espantar pela negativa. Vejo-a aproximar-se à medida que percorremos as ruas da cidade. Negra. Imponente e cada vez mais gigantesca, tão que é impossível observá-la a toda a escala quando chegamos perante o leviatã.
 Nesta altura, a catedral está em obras de limpeza. Parece impossível que este cíclope negro fosse originalmente branco. Ponho-me a imaginar como seria esta montanha na sua alvura e se operaria um sentimento mais simpático. A poluição enegreceu a catedral e tornou-a ameaçadora na sua imponente majestade. É, foi, o preço da industrialização. Afinal, estamos no estado da Nordrhein-Westfalen, na bela tradução de Renânia do Norte-Vestefália, um dos estados mais industrializados da Alemanha, dentro do qual se aloja, aqui bem perto, a famosa (ou infame) Ruhrgebiet, a região do rio Ruhr, economicamente dependente da indústria do carvão, quando o carvão fez época e nos trouxe até este presente de degradação ecológica. Toco na pedra a tentar perceber o grau entranhado da poluição e fico perplexa como é que a dita foi absorvida. Eu a pensar que era uma coisa superficial e é algo que parece foi sugado pela pedra como se esta fosse uma esponja. Impressionante (no mau sentido).
Além das dimensões bestiais, "a" catedral é conhecida por nela repousarem as relíquias dos Reis Magos. Sempre sorri mentalmente desta ideia das relíquias dos Reis Magos. É uma coisa queirosiana. Um Raposão medieval qualquer a cantar a cantiga do bandido e a crédula Cristandade a acenar com a cabeça que sim, senhor, que venham tão santas relíquias para o nosso seio. Não sei que raio de ossos se albergam no ossuário dourado que faz as delícias fotográficas dos turistas que olham para aquilo no olhar que olha sem ver. 
Faço o tour da catedral ao meu marido. Informo-o de que está noutro sítio patrimonial UNESCO (e nisto dou-me ao orgulho de quem diz "Vê só em quantos sítios UNESCO já estiveste nesta viagem!") e levo-o a ver as oficinas da catedral que levou seiscentos anos a construir e que, tendo sido dada por construída em 1880, nunca esteve realmente sem obras. Engenheiro, interessa-se por esse backstage do monumento e eu aguento os pingos de chuva miúda para deixá-lo contemplar o que me parece uma pedreira faraónica. Sim, lembrando-me das pirâmides onde estive há tantos anos, encontro semelhanças entre esta catedral e os colossos de Gizé. 
Quando emergimos da catedral, alguém faz um espectáculo de rua com bolas de sabão. Noto as nuvens de bolinhas etéreas e coloridas como arco-íris e vejo "a" catedral sob outra perspectiva, quiçá se mais simpática. Procuro no chão os desenhos a giz que artistas costumam fazer neste adro igualmente colossal mas os chuviscos esborrataram-nos. Tudo muda e "a" catedral perdura. Pergunto ao meu marido se ele amou ou detestou o portento e recebo uma resposta que me é imprevista: gostou. Ficou-se a meio e eu olho para ele a tentar fazer sentido daquele "gostar" porque, para mim, nunca se me pôs a questão de "a" catedral convocar sensações medianas. Alinho as sinapses mentais para esta nova informação e penso que talvez nesta minha oscilação entre amar e detestar a dita, eu fique mais confortável num meio-termo. Amo que seja um bicho de enormidade que quebra todos os recordes e que esse bicho portentoso exista perto de onde nasci. Detesto-lhe a negritude infeliz e a posse assustadora e mais a ridicularia de relíquias impossíveis. Assim, talvez hoje tenha aprendido que o que eu sinto pela catedral é uma espécie de gostar. Desta vez não compro um postal com a foto oficial da catedral, compro, como recordação, um postal que é um desenho de uma catedral simpática a zelar sobre a cidade e a reflectir-se no Reno emoldurado por árvores. Gosto!